sábado, março 30, 2013

Sobre o prazer de caminhar pelo meio fio, a sarjeta!



Descalça, deslizo no seu corpo e acabo esbarrando nas vidas que por ali escorrem. Multidões. Por todos os lados, dos lugares mais distantes, as vidas correm por ali. Na verdade são cacos de vidas, que ora se juntam ora sambam pra longe. Acoplam-se a cacos de vida outros, se fazem novos, se despedaçam, mas sempre EsCorrem. É o canto dos olhos da cidade, o choro engasgado do asfalto que parece tremer e amolecer em chamas transparentes quando muito quente. Palco do cantar mais sombrio e esquecido. Marginal, carrega o encontro das linhas simétricas formando veias. É tropeço, limite e guia. Empoça para não ser tocada e nessa revolta de sentimentos transforma seus caminhos em corredeiras coléricas. Seca, empunha a escória, os restos, o lixo. Pulsa, quando apreciada do alto do prédio, em veias expostas da cidade irrequieta. Sabe segredos imundos deixados pelos escarros e agoniza nas mágoas ali jogadas. Persevera em re-existir à toda aflição, pois sabe que suas fissuras vão sempre permitir algum alento, qualquer sussurro da vontade de existir que dali salte a empoderará na vontade de ser líquida e dissolver-se no sangue da terra para dar licença à vida que se esconde e quer se fazer visível!