segunda-feira, fevereiro 10, 2014

infinitas

Fotografia de Eva Rubinstein

Cada marca deixada flutua em direção ao infinito, mesmo  podendo ser apagada ou destruída, quando são feitas de matéria orgânica ou artificial, quando estão ali repousando a espera de  relação. Talvez a marca não sobreviva materialmente, mas qualquer coisa que a se deparou com ela antes de desaparecer experimentou algo que desencadeia outra coisa e outra e infinitamente outras. Como as marcas caminham para o infinito se podem desfazer-se? O truque para o infinito é a provocação, cada marca suscita algo, uma imagem, um som, um cheiro, uma aspereza ou/e brandura. Dura até quando o corpo dure e se esse corpo morrer, qualquer outro que tenha  acendido o interruptor da sensação guarda um pouco das impressões dele, um pouco dos gestos e da vida impregnada ali. Nunca tem fim.

sábado, novembro 23, 2013

o contágio do híbrido


Emergiu um som fúnebre do respirar, ecoando várias mortes de si e exalando um cheiro de vida em transformação no brotar . Na boca uma costura metálica fez possível o sopro inteligível. Nas mãos fios de cobre buscando se atrelar às existências incomuns. Na barriga a placa mãe filtrando as forças intragáveis e indigestas. Nas pernas vários dedos acoplados formando a imagem da dança dos corais submersos.O caminhar escorregado e cego faz tropeçar e encontrar as bordas, usando o tato para sentir os embaraços da trilha. Tem asas nos olhos, podendo ter imagens do mundo como um emaranhado e fazer mergulhos profundos nas esperanças insólitas. Verte sabores diversos de cada poro aberto, propiciando uma deleitar-se infinito. Onde está o sexo? Naquele emaranhado de fios, peças e organismos a figura de sexo a qual conheço é decomposta imediatamente. Cada arrepio na sua pele provoca uma explosão de luzes tão fortes que meus olhos não podem definir formas e me faz mergulhar no desconhecido só me restando os desenhos nas sombras, aflorando as sensações mais profanas. Esse ser-híbrido encontrou as fissuras do meu corpo e me contaminou com alguma doença de liberdade.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Esvair-se

Um desmaio do hábito. Foram tantos e arderam tantos em mim, diluídos em cada gota de sangue. Sangrei e sangrou até restar só o caule, ofegante, a vida implorava, tentando escorrer das veias. Só com um transplante urgente de seiva bruta e pude sair para existir em outros universos, levantando meus braços e pra dizer meu corpo está presente. Posso deslizar como cobra e tentar aquele voo-queda das asas na tempestade. Também estou no que é e foi enraizado, qualquer arvore que me atraia qualquer folha seca esquecida que depende do vento pra completar sua dança. Depois, enfrentei o silêncio, o esquecer das palavras e a agua passou a me dizer, implorei pra que chovesse e assim escutar conselhos que escorrem. Esperei tempo demais e encontrei em todo lugar, os conselhos que a mensageira chuva sussurrava, das águas correntes, das águas protegidas pela terra, dos oceanos desertos

terça-feira, outubro 22, 2013

domingo, setembro 22, 2013

Liberdade TAMBÉM pode aprisionar, se fixar na ideia de liberdade é um enrijecimento! A liberdade é transitória e fluída, não tem nome nem se traduz em palavras, não se fixa, dança passos híbridos e não marcha no compasso dado.

sábado, agosto 31, 2013

corre
concreto
não desmaia
ouve a melodia do vento
aquela que assobia no túnel
na velocidade do metal
no silêncio da multidão que espera.

sábado, março 30, 2013

Sobre o prazer de caminhar pelo meio fio, a sarjeta!



Descalça, deslizo no seu corpo e acabo esbarrando nas vidas que por ali escorrem. Multidões. Por todos os lados, dos lugares mais distantes, as vidas correm por ali. Na verdade são cacos de vidas, que ora se juntam ora sambam pra longe. Acoplam-se a cacos de vida outros, se fazem novos, se despedaçam, mas sempre EsCorrem. É o canto dos olhos da cidade, o choro engasgado do asfalto que parece tremer e amolecer em chamas transparentes quando muito quente. Palco do cantar mais sombrio e esquecido. Marginal, carrega o encontro das linhas simétricas formando veias. É tropeço, limite e guia. Empoça para não ser tocada e nessa revolta de sentimentos transforma seus caminhos em corredeiras coléricas. Seca, empunha a escória, os restos, o lixo. Pulsa, quando apreciada do alto do prédio, em veias expostas da cidade irrequieta. Sabe segredos imundos deixados pelos escarros e agoniza nas mágoas ali jogadas. Persevera em re-existir à toda aflição, pois sabe que suas fissuras vão sempre permitir algum alento, qualquer sussurro da vontade de existir que dali salte a empoderará na vontade de ser líquida e dissolver-se no sangue da terra para dar licença à vida que se esconde e quer se fazer visível!