sábado, outubro 27, 2012

Arcos que enfeitam os desejos II : O começo que pode ser esse dentre muitos.


Trato aqui dos começos que por se chamarem começos é melhor serem colocados no meio. Não sei o motivo, mas sinto que assim eles serão começos sem origem, sem uma raiz do esperado, do comum. Também penso que deslocando o começo para o meio, o entre sempre pode ser um ativador de prováveis viveres. O começo para os arcos, nesse momento, me parecia remeter a própria descrição da arquitetura. Duas bases fixas no solo e o dentre pairando no ar, formando uma passagem. Os arcos partem dos alicerces inesgotáveis, como o social e o mundo e a vida e a natureza e tudo. Esses alicerces podem ser tudo o que for crível de se imaginar constituidor -  concreto e abstrato. Os alicerces foram construídos antes mesmo de existirmos enquanto um corpo. Contudo, há de se ter cuidado para não se acomodar e dançar conforme o ritmo destes alicerces já postos, como uma lista de modos de existir, aceitos e não aceitos por esses alicerces. O problema é como retirar as fundações já dadas? Se quebro  a base,  tudo desmorona. [...]
Agora, o começo do desejo. De onde vem esse desejo que é enfeitado por arcos?! Calma, não acho que essa pergunta seja a mais pertinente, talvez perguntar, como ele se fez desejo? Quais trilhas ele andou? Não sei. Penso em tantas que teria que escolher e a própria escolha já é preferir. No caso eu não quero preferir nenhuma das trilhas que pensei. Com isso, poderei pensar todos os dias  em uma trilha que listei e  talvez apareçam outras trilhas que eu nunca havia pensado. Prefiro não dar um ínicio para o desejo.

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segunda-feira, outubro 22, 2012

Arcos que enfeitam os desejos I: Primeiro abre os olhos de todas as partes do corpo.



Acordei tendo a cabeça latejando. Parecia que por trás dos olhos acontecia uma explosão. Podia ser meu pensamento em erupção. Podia ser uma doença grave em curso. Na verdade pode ser os dois, a soma deles, ou os pensamentos causando doença .Pode ser doença causando pensamento, que também pode ser os pensamentos afoitos para saírem produzindo um sobressalto na mente, fazendo com que brote no pensar uma sensação de estar doente, como se uma víbora o tivesse envenenado e caso não fosse colocado pra fora rápido,  e eu já caminharia para o fim do que pensei. Pode ser a forma do corpo gritar por visibilidade. A forma que ele encontrou pra avisar de que a mente é o corpo e não devo achar que a mente é uma entidade que dirige o corpo.
Foi assim que vislumbrei a morte. Tive medo, confesso. Carregou meus sentidos, tirou o meu sono. Despertou os meus dedos que tatearam o que estivesse mais próximo. Encontraram. Começaram a desenhar palavras sobre a cama, tentando gravar frases nos lençóis.  Dei-me conta que o  movimento era meu  -vontade minha. Alguns segundos antes estava olhando um desejo fora de mim. Levantei rápido e passeie no quarto com a atmosfera quente e carregada. Fui de encontro a estante de livros, no anseio de pegar algo que me acalmasse. Foi quando caiu por entre minhas mãos, Fluxo-Fluema da Hilda Hilst, e quando o abri algo se fez visível. Uma folha com palavras apressadas saltando do branco. Eram meus escritos. Pois é, pessoas, também quis que fossem os escritos de outros, um recado de alguém, tinha esperança em algo vindo de alguém. Isso mesmo, me enganei, era meu e teria que encarar-me.
Lendo aquilo percebi que o medo da morte sempre esteve presente em mim. E o medo não vem do julgamento divino. Não acredito em uma entidade além de nós capaz de nos redimir e salvar. Mentira, eu não sei no que acredito, eu sei o que eu sinto e continuarei caminhando por meio disso.Voltando à folha, uma frase no alto reverberava : Arcos que enfeitam desejos. No final dos escritos se encontrava uma frase grifada e circulada, sem muito se conectar com o resto das palavras, à principio. Estava rascunhado assim: Veneno que compõe o corpo e acaba atravessado nos sentidos.


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