Você está só!
A família, instituição burguesa, feita exatamente para te
encaixar nos padrões socialmente aceitos. Não, ela não te fará companhia. O máximo
que te resta dessa instituição falida, é a dó que sentem pela sua existência frágil,
assim como a sentem por um animal.
Amigos, só estão lá quando precisam ou quando convém. Partem
dos agrados, das palavras afáveis, dos assuntos pseudo potencializadores. Eles
são apenas massa podre do pão amanhecido, que endurece sua carne quando você mais
precisa. E ainda essa dita família escolhida, se faz tão falsa que compõe o ato
mais triste da peça, em sequência: abandono e decepção!
Agora eu sei, sou errada, vou estar plena na mascara bordada!
A hipocrisia sempre salvou a todos, porque não a mim?
Salva no começo, como que numa ilusão de salvamento. Mas, se você continuar se apoiando nela, ela vai cobrando seu preço e te envolvendo num universo falso da cabeça aos pés.
ResponderExcluirA hipocrisia. Ninguém está salvo nela, nem a ela.
ResponderExcluirSeu post me faz lembrar desse poema.
"OS PRIMEIROS QUE AMAM"
Os primeiros que se amam
são os poetas e os pintores da geração precedente,
ou do início do século; tomam
no nosso espírito o lugar dos pais, ficando,
poré, jovens como nas suas fotografias amarelecidas.
Poetas e pintores para quem ser burguês não era vergonha...
filhinhos de papai...
ou pobres gravatas que tinham o sabor de rebelião e de mãe.
Poetas e pintores que se tornariam famosos
na metade do século,
com algum amigo desconhecido de grande valor,
mas, talvez por medo, não adaptado à poesia,
(poeta verdadeiro morto fora dos anos).
Paralelepídedos de Viena ou de Viareggio! Beiras de rio de
Floreça ou de Paris"
Que ressoam com aqueles pés de filhos
calçados com sapatos de sola grossa.
O vento da desobediência tem odor de cíclame
sobre as cidades aos pés dos poetas jovens!
OS POETAS JOVENS QUE DISCUTEM
DEPOIS DE UMA VIL CANECA DE CERVEJA,
COMO BURGUESES, INDEPENDENTES,
- locomotivas abandonadas mas ardentes
constrangidas por algum tempo sobre trilhos cegos,
a gozar a falta de pressa da juventude:
CERTOS DE PODER MUDAR O MUNDO PODRE
COM QUATRO PALAVRAS APAIXONADAS E UM PASSO DE REVOLTOSOS.
As mães como mães de pássaros
nas pequenas casas burguesas
entretecem o jasmineiro
com o significado da luz privada de uma família,
e do seu posto em uma nação cheia de festas.
As noites, assim, ressoam só com os passos dos meninos.
A melancolia tem infinitas covas
infinitas como as estrelas,
em Milão ou numa outra cidade,
das quais emana um ar de estufa acesa.
As calçadas escorrem ao longo das casas dos Setecentos,
casas malferidas com sacrossantos destinos
(ruas de aldeia transformada em cidade insutrial),
com um longíquo odor romântico de estábulos gelados.
É assim que os poetas meninos adquirem a experiência de viver.
E tem a dizer-se o que se dizem os outros,
os meninos-não poetas (donos também da sua vida e da inocência)
com mães que cantam
nas janelas dos pátios internos
(poços imundos para as estrelas não vistas).
Onde se perderam aqueles passos!
Não basta uma severa página de memórias,
não, não basta - talvez só o poeta não poeta,
ou o pintor não pintor,
morto antes ou depois de uma guerra, em qualquer
cidade da transferência lendária,
conserva em si aquelas noites, com verdade.
Ah, aqueles passos - dos filhos
das melhores famílias da cidade
(Aquelas que se seguem o destino da nação
como uma horda de animais segue o odor
- aloé, canela, beterraba, cíclame -
na sua migração) aqueles passos de poetas
com os amigos pintores, que andam nas calçadas,
falando, falando...
Mas se este é o esquema, outra é a verdade.
Reproduz, filho, aqueles filhos.
Tem saudade dele nos teus dezesseis anos.
Mas fica logo ciente
de quem ninguém fez a revolução antes de ti;
que os poetas e os pintores velhos ou mortos,
apesar do ar heróico com que os glorificas,
são absolutamente inúteis, não te ensinam nada.
Goza as tuas primeiras ingênuas e teimosas experiências,
tímido dinamitador, senhor das noites livres,
mas lembra-te de que estás aqui só para ser odiado,
para destruir e para matar.